In a hotel in Napoli

  “Eu entrei no quarto duplex do hotel e fui aproveitando para memorizar cada curva daquela arquitetura italiana. Me lembro de ter aberto a porta da varanda e pode até ser que eu tenha dado um suspiro alto, desses que se ouve de longe. E talvez por isso a Emilia, enquanto largava seus equipamentos sobre a mesa, tenha tido a inspiração.

   Fato é que a ideia do ensaio já existia, o que faltava era o instante em que o sonho saísse da cabeça e passasse a acontecer nas coordenadas geográficas de Napoli. Eu podia estar sob efeito de álcool, mas não, o pontapé inicial veio com a coragem dela. A amiga que empunhou a câmera pesada e olhou leve para as cortinas que balançavam, para os meus cabelos presos de um jeito meio tímido. Eu me vi no reflexo do olho dela. Eu senti que ela sabia o que estava fazendo e dependia de mim para alcançar algo inédito. Decidi que valia a pena acreditar no poder da sua arte.

   De repente eu estava passando frio, disfarçando o medo, aprendendo a ser mulher fatal num espaço público. De vez em quando eu ouvia barulho de buzina ao longe, uma conversa de bar trazida pelo vento. O olhar de um voyeur não poderia me atrapalhar e sempre soube que todo ser humano tem um ator dentro de si. Sendo assim, meu profissionalismo tinha que conjugar com o dela. E fui abandonando as minhas camadas superficiais, meus pudores junto ao lenço, tiara, meias, até deixar a pele aceitar o seu tamanho, sua cor, suas linhas desiguais.

   Eu descobri que não conhecia meus ângulos, minhas curvaturas, que meus braços podiam fazer desenhos lindos atrás de um voil transparente. E foi assim que a mente passou a se divertir e foi se esquecendo lentamente de se ocupar que eu não falava a língua dos vizinhos de quarto, muito menos da polícia que poderia, quem sabe, me multar por fazer o ensaio que mudou minha vida. Hoje, ao olhar as fotos e recordar nossa parceria de superação e realização, ouviria qualquer sermão com meu maior sorriso estampado no rosto.

   O mais incrível é que em nenhum momento a Emilia me deixou tensa ou me fez duvidar de que estar nua diante de suas lentes seria um desperdício de tempo. Ela parecia estar lidando com uma dose de adrenalina na mesma intensidade, porém com um auto-controle sobrenatural. Ela brincava com o relógio, com o sol, com os móveis, meus sapatos e o mundo lá fora. Eu sabia que o que viria seria precioso. Eu tinha a certeza de que nós estávamos vivendo uma terapia de encontros: o meu ser cotidiano com meu ser profundo e desconhecido. Graças à Emilia, aquele “eu” que saiu de Nápoli nunca mais se encontrou com o “eu” que chegou. E assim ela viveu feliz para sempre.”

 

(Texto escrito pela modelo)


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